O Cabelo, O Pelo E A Lã
Sempre fiquei incabulado com um antigo provérbio contra o qual poucos se atrevem a falar alguma coisa: "Deus dá o frio conforme o cobertor". Segundo esse provérbio, o qual pressupõe a providência divina, não existe necessidade, por maior que seja, que ultrapasse os limites do que já se possui.
Podia até ser que eu concordasse com essa afirmação se eu não acompanhasse os noticiários, nem nunca saísse da minha casa, ou se quando saísse fechasse os olhos e não visse que há mendigos no inverno morrendo de frio. Então descartemos a providencia divina para essa vida, pelo menos no que diz respeito aos mendigos. Descartemos a providência divina também quanto ao inverno excessivo, pois isso não é dádiva.
Descartemos Deus, pois quem sente frio é o homem, e é o próprio homem quem tem que tomar alguma atitude se não quiser morrer de frio.
Pois bem, o homem está sem Deus, completamente desamparado nesse sentido, tendo portanto que se virar. Não entretanto sem as condições naturais e as suas forças para conseguir os recursos necessários. Pois o homem é um animal que pensa, que inventa técnicas e que produz muito do que consome. Mas nem por isso é possível dizer que o momem é o animal mais bem dotado. Nas noites de frio intenso, enquanto os outros animais (chamados de irracionais), ou não são tão afetados pela temperatura ou têm uma quantidade de pelos suficiente, os cabelos e os pelos humanos não são suficiantes para que se tenha uma noite de sono aconchegante. E o que o homem faz? Depila a ovelhina ou procura algum outro recurso.
Mas a inteligência humana se relaciona com as suas necessidades? Se se relaciona, em que medida? A inteligência depende dessas necessidades ou são essas necessidades que dependem da inteligência?
O homem não é auto-suficiente quanto a viver expontaneamente na natureza. Se fosse, não precisaria no inverno se cobrir com a lã de outros animais ou com outro recurso que seja. Por outro lado, é consciente e produz conscientemente. O corpo da ovelha produz naturalmente a lã necessária à própria ovelha. Mas o homem, não tendo o corpo dotado dessa capacidade, através de sua consciência se vê obrigado a expropriar a ovelha de sua própria lã.
Diante disso, eu vejo uma questão de primeira ordem: a consciência propicia ou não um melhor relacionamento do ser que a possui com a natureza? Se não propicia é possível que esse problema seja superado pela própria consciência?
Até agora não conclui nada a respeito.
Distúrbios, Soluções e Efeitos Colaterais na Relação Ser Humano / Meio-Ambiente
Em seu estágio atual, a humanidade, em muitos de seus aspéctos, ainda não demonstra possuir equilíbrio. Seja no aspécto da saúde humana, seja no aspécto psicológico, seja no aspécto econômico, seja no aspécto social, seja no aspécto da relação do ser humano com o meio-ambiente (e é sobre esse aspécto que vamos tentar nos aprofundar).
O sentido do termo "equilíbrio" ao qual eu estou querendo me referir é o do funcionamento harmonioso de um sistema e conveniente à existência e propósito desse mesmo sistema. A falta desse funcionamento conveniente é o chamado "desequilíbrio" ou "distúbio". E é verificado nos vários aspéctos da humanidade.Mas quando começa o desequilíbrio ou distúrbio na vida particular dos ser humano? Na idade adulta? Na adolescência? Na infância? Antes mesmo de nascer, o desequilíbrio começa com os pais? Parece não ser tão simples o problema!E quando começam os distúbios na história da espécie humana? Na era cristã? Antes de Cristo? Na pré-história? Quando?
Um dos sintomas mais remotos que eu consigo conceber é algo que aconteceu na relação do ser humano com o meio-ambiente: a aparição da monocultura. Os resultados científicos obtidos até agora indicam que a monocultura tenha sido uma invenção humana. E talvez tenha sido uma das primeiras invenções da humanidade. Através da monocultura, o ser humano interfere na biodiversidade do ambiente natural, ou ecossistema, despojando este último de seu próprio equilíbrio. Talvez uma das primeiras intervenções dor ser humano no meio ambiente tenha sido a monocultura.
Mas a monocultura, apesar de ser um avanço, teve conseqüências desastrosas consideráveis. Se por um lado representou algum tipo de solução para os problemas alimentares do ser humano, por outro trouxe sérios efeitos colaterais. E toda vez que o ser humano tenta resolver estes efeitos colaterais, pode até encontrar soluções, mas estas trazem por sua vez outros efeitos colaterais.
O primeiro efeito colateral da monocultura que eu consigo conceber é a praga. Não encontramos esse problema numa floresta em cuja vegetação o ser humano ainda não tocou.

Quando nos deparamos com uma mata virgem, não encontramos nenhuma forma de vida nativa depredando desordenadamente as outras e ameaçando esse ecossistema. A cadeia alimentar do ecossistema tende a manter o seu funcionamento e a sua existência. Mas a praga tende a devorar e destruir toda a lavoura sem que a plantação tenha um dispositivo próprio contra isso. Novo problema: o ser humano precisa encontrar uma solução para preservar a lavoura e assegurar a colheita. Não preciso dizer aqui quais soluções foram encontradas pelo ser humano e quais os seus efeitos colaterais.
Uma plantação, sem um dispositivo próprio que a proteja, depende da habilidade humana em encontrar soluções contra a praga. Forma-se assim um sistema entre o ser humano, a lavoura e a praga. Daí para os conseqüentes desequilíbrios, surgem novos e novos sistemas e nunca uma cura definitiva. Ao menos, até agora ainda não se encontrou uma cura definitiva.
Um sintoma ainda mais remoto parece ser o desequilíbrio causado pela aparição da agricultura. Antes, o ser humano apenas usufruia os recursos fornecidos pelo ambiente nos locais por onde passava. Ao modificar o seu modo de vida, deixando de ser nômade e se tornando sedentário, o ser humano quis também modificar o meio-ambiente, interferindo propositalmente no ecossistema, embora talvez não fosse com plena consciência.
Algo que deve ser observado é que antes, quando era nômade, por um lado o ser humano era mais ativo, mas por outro era menos. Tudo indica que o ser humano era guiado pelas circunstâncias naturais. Quando passou ao manuseio do fogo e quando iniciou a agricutura, o ser humano passou a criar e tentar dominar as circunstâncias.
Mas, enfim, o que se verifica: ao procurar e encontrar soluções, o ser humano encontra novos problemas nessas soluções. E parece ser esse o propósito da razão humana: encontrar sempre novas soluções para os distúrbios que causa.

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